O filósofo espanhol Ortega y Gasset, em uma de suas obras, assim nos fala: "É, na verdade, surpreendente e misteriosa a compacta solidariedade consigo mesma que cada época histórica mantém em todas as suas manifestações".
Não são muitas as ocasiões que nos apresentam elementos que nos permitem refletir sobre os laços comuns que, no futuro, poderão ser identificados como aqueles que forjaram o nosso próprio tempo.
A renúncia de Hosni Mubarak, no Egito, se constiui num desses raros fenômenos, que está sendo e ainda será, com certeza, analisado sob os mais variados aspectos. Não tenho a intenção de ser simplista, porém um trecho do discurso do presidente Barack Obama me fez pensar, mais uma vez, sobre o que considero ser uma característica-chave para apreender a nossa época. Queria postar aqui o texto exato, mas como não consegui anotar na íntegra e nem encontrei na internet, vou deixar apenas minhas próprias impressões quanto ao que ouvi.
Logo no início de seu discurso, Barack Obama se refere a uma "nova geração de egípcios", que teria feito uso da criatividade e da tecnologia para fazer com que suas vozes fossem ouvidas pelo governo e pelo mundo. Ele também aponta o espírito empreendedor dos jovens e o caráter não-violento das manifestações.
Poderíamos dizer que esses são vetores para uma nova forma de lidar com o mundo?
Ao longo da história, sabemos que são sempre os jovens de hoje que definem os novos horizontes do planeta. Mas quem é o jovem de hoje? Ouvi opiniões interessantes de alguns jovens do mundo (64 representantes das Américas, Europa, África e Ásia), reunidos em Santos no mês de janeiro para a edição 2011 dos Guerreiros Sem Armas, programa de treinamento promovido pelo Instituto Elos Brasil. Uma delas me chamou a atenção:
- Somos a primeira geração com tecnologia, conhecimento e vontade de mudar o mundo.
Todos sabemos que o conhecimento humano alcança patamares nunca antes vistos. Na busca por melhorar a qualidade de vida no planeta, temos desenvolvido novas técnicas, saberes e aparatos. O resgate dos mineiros do Chile, por exemplo, consumiu capital humano e financeiro, bilhões em prol de algumas dezenas de vidas. Agora, como ressaltado pelo presidente Obama, a tecnologia permitiu a comunhão e a ação de milhões de egípcios.
Sim, eis um diferencial, certamente. A ação. Não mais a juventude alienada e passiva, citada por tantos ao longo dos anos.
Ao mesmo tempo, a máquina, utilizada para esse fim, em prol do humano, perde seus frios contornos e o estigma de isolar os seres, passando, enfim, a nos aproximar, a nos conectar. Seria essa proximidade, lentamente infiltrada, sem se pressentir, a real diluidora das barreiras da estranheza? Seria, por fim, a comunicação entre os di-versos (diferentes versos, diferentes facetas, diferentes faces) a propiciadora dessas ações não-violentas, como tributo a uma tolerância universal? (Gandhi certamente está cantando agora...)
Sigo com a Ashoka, que numa feliz inspiração, cunhou o nome de Geração MudaMundo. Ainda que o mundo não tenha se tornado um mar de rosas, acredito firmemente que é assim que seremos conhecidos no futuro. Pelo menos, é isso que eu desejo ser. E a julgar pelos indicadores que se apresentam, minha fé se renova, cada vez mais, de que tempos felizes acontecerão.
Para saber mais:
- Guerreiros Sem Armas:
- Instituto Elos Brasil
- Ashoka (Geração MudaMundo; Changemakers; Empreendedorismo Social)
- Generation Waking Up (Awakening the Dreamer, Changing the Dream)
"A new generation of young people is waking up. We are the middle children of History, coming of age at the crossroads of civilization, a generation rising between an old world dying and a new world being born. We are the 'make-it or break-it' generation, the 'all-or-nothing' generation, the crucible through which civilization must pass or crash".