sábado, 20 de novembro de 2010

Caminho do Guerreiro Sem Armas - a terceira vez é sempre a melhor...

5, 4, 3, 2, 1... Já!

E eis que a visita à Viçosa aconteceu! Aconteceu no dia 15/11, dia da proclamação da república. E foi, de certa forma, uma viagem às minhas origens. A carga de emotividade foi grande.

Saímos de Maceió bem atrasados. Trânsito na cidade, ainda erramos a entrada no caminho - é que com as chuvas, a entrada de Cajueiro, município vizinho, estava interditada. Fomos chegar já por volta de 11h. O bom é que acabei vendo Atalaia, outro município vizinho. Começamos pela sede de Viçosa. A idéia era que a família me apresentasse o lugar, já que eles viveram ali. Minha mãe e meu tio estavam comigo. E a primeira parada, como não podia deixar de ser, foi a casa onde eles moraram com os meu avós. Primeira pausa para fotos.

Vimos outras coisas - a escola onde estudaram, a praça principal, o antigo cinema para onde eles saíam. Mas fiquei mesmo curiosa quando eles falaram da "Casa dos Paus Brancos" - já tinha ouvido falar muito desse lugar. Tocamos pra frente. Era a primeira casa do meu avô, uma casa grande, com terreno de sítio. Entramos. Novas fotos, muitas histórias. E também desejos. A casa está à venda. Meus tio e minha mãe suspiraram - se pudessem comprar...

Estávamos perto do rio. Lembrei do trabalho e fui olhar o rio Paraíba. Eles foram comigo, me mostrando e explicando. Do outro lado, ficava um sítio de uma antiga parenta. Não havia como dissociar - aquela paisagem, nova para mim, estava repleta das lembranças deles. Falei das enchentes, eles lembravam de algumas de antigamente. As margens dos rios não eram, então, tão ocupadas. Olhei as casas na beirinha e vi alguns rastros da destruição de junho. Mas pensei nos trechos sem ocupação - dava uma orla bonita. Minha mãe estava surpresa - como o nível do rio estava baixo! As pedras aparecendo - não eram tantas assim antes. Ela me mostrou a ponte e contou - quando iam à escola, sujavam os pés nos caminhos precários e era ali que se lavavam pra poder entrar na cidade.

Dali, fomos pro Sabalangá. Outro lugar tão falado nas histórias de Viçosa. E meu primeiro susto: achava que era um povoado super isolado - não é não, é um bairro da cidade, que de tão pequena, quase não dá pra ter bairro. Me vi pensando na expansão - Viçosa tem Plano Diretor. Esses lugares pequenos deviam ser fáceis de ordenar, se ao menos houvesse mais disposição dos municípios... Minha mãe e meu tio disseram: em 30, 40 anos, de terem deixado Viçosa, quase nada havia mudado. A cidade era praticamente a mesma. E antes ainda tinha as feiras, eventos, o trem, outra animação. Vi por lá um espaço interessante: um centro cultural afro, lembrando novamente a herança negra do lugar.

Do Sabalangá, fomos almoçar na sede. O restaurante havia sido indicado já em Maceió, chamava-se Paladar e era de pessoas da família do marido de uma prima (essas parentanças que se esticam...). Minha mãe encontrou uma antiga amiga e mais uma vez, lembrando o trabalho, expliquei sobre o evento que ia acontecer por lá. Contatos trocados, comemos e falei com os donos do restaurante. Fomos puxando os nomes dos conhecidos, expliquei quem era eu, falei de novo do evento. Notícias colocadas, voltamos pra estrada, novamente pro Sabalangá, que o caminho do Gurgumba era por ali. Pedimos informações - como chegar? Um pouco de complicação, enfim nos acertamos. Era fácil, depois de saber.
A providência não falha e topamos com um caminhão. Fomos seguindo, a estrada é linda, pena não ter foto pra pôr aqui. Cercada de eucaliptos, a luz filtrada pelas folhas. Um sonho. Rodamos uns dez minutos, indo devagarinho. Depois de uma curva, o caminhão estava estacionado. Paramos o carro do lado. Falamos com o motorista - não é que ele estava indo pro Gurgumba também? Seguimos com ele e começou o caminho que Karina tinha dito - o carro fica, passa a pontezinha, segue margeando os trilhos. Mas pra minha surpresa, chegou rápido, 10 minutos caminhando, em vez de 20 ou 30.

Vimos logo as crianças, comendo manga na sombra. As mulheres do lado de fora das casas. Os homens tomando banho no rio. E seguimos, cumprimentando as pessoas. Perguntamos por D. Benedita, a líder que Karina tinha indicado. Era a última casa. Chegamos lá e fomos muito bem recebidos, por ela e pelo filho, Luiz Carlos. Nosso guia, ficamos sabendo então, era chamado de Francisquinho.


Crianças comendo manga e a turma da conversa: Facchinetti, tio Celso, D. Benedita, minha mãe, Francisquinho.

Lá conversamos bastante. Dona Benedita ofereceu suco de acerola, comemos a fruta do pé. Eu expliquei qual era o objetivo da visita, falei sobre o evento que ia acontecer e que eu ia levar gente pra visitar o Gurgumba. D. Benedita me falou da enchente, mostrou onde a água havia chegado. Falou das visitas até de Brasília, das viagens que fez. Das promessas, das necessidades de sua gente, sem estudo, sem proteção, sem estrutura, sem renda, sem terra para plantar. Contou um pouco da história do Gurgumba - de como viviam em outro lugar, antes, mas esse lugar nunca fôra deles. Era um lugar de outros e viviam de favor, até que haviam sido expulsos para aquele canto que restou, na margem dos trilhos. Falou da questão racial. Eu falei da Serra Dois Irmãos e lembrei das pesquisas sobre os últimos dias de Zumbi. Ela ainda falou do médico que não chegava por ali e disse dos desejos: ter acesso à saúde, ir para um lugar melhor, ter casa pros moradores, ter água, ter trabalho, ocupação para as mulheres, transporte pra escola das crianças. Mais segurança para todo mundo ali.
Desabafou sobre as dificuldades da sua luta. Eu disse a ela pra acreditar mais um pouquinho, pra não desistir não. Eu ia levar gente ali pra ouvir ela falar, pra falar com os moradores. Disse que havia possibilidades, um caminho a percorrer, sem ter muita certeza de onde ia dar, mas querendo muito tentar.

Na despedida, percebi meu tio encantado. Com a engenhosidade daquele povo, que criou trole pra carregar as compras sobre os trilhos, já que não se via trem há muito tempo. E com o novo amigo que ele fez e cujo contato levou: o filho da Dona Benedita.


Luiz Carlos e a linha d'água da enchente
Seguimos com o Francisquinho de volta à ponte e de lá rumamos pra casa e comemos pelo caminho. Eu saí feliz. Tinha visto muita coisa dos meus. E encontrado outras tantas pra pensar.

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Quem sou eu

Sou um espírito livre e a partir daí, o mundo é para mim. O mundo Dança. O mundo é Arte. O mundo Sonha. O mundo tem um Ideal. O mundo é Paixão. E com Paixão se vive e então, o mundo se faz Vida.